Santos na Revista Horizonte

Santos, cidade e porto

A vila fundada por Brás Cubas cresceu, ganhou status de capital do café e recupera parte de seu passado

 

foto: João Correia Filho/HG

A cidade de Santos, no litoral paulista, pode se considerar privilegiada. Primeiro, a natureza brindou-a com um estuário perfeito para a atracação de navios de qualquer porte. Faltava descobri-lo, como o fez Brás Cubas, um dos comandantes da flotilha de Martim Afonso de Souza, que fundou a capitania de São Vicente, em 1532. Foi ele quem percebeu o potencial do local para a proteção dos navios que chegavam à região. Em 1540, as autoridades portuguesas autorizaram a transferência do porto de São Vicente para o Enguaguaçu, frente ao povoado ali existente, e que viria a se tornar vila e depois cidade, com o nome de Santos.

Esse é o início da história de uma das cidades mais antigas do Brasil, cujo patrimônio começa a ser relembrado por meio de uma ampla ação de recuperação do seu Centro Histórico. Há muito que ver na cidade, não só resquícios daquela época como dos períodos posteriores, graças ao porto que deu a Santos um papel de destaque em várias situações relevantes do desenvolvimento do país.

O café impactou a arquitetura e o urbanismo de Santos, criando novos padrões e estilos. São do final do século 19, período do apogeu da economia do café, a Estação do Valongo, inaugurada em 1867 para servir a estrada de ferro Santos-Jundiaí (São Paulo Railway), no Largo Marquês de Monte Alegre, e conhecida como “A Ingleza”; a Casa da Frontaria Azulejada, por onde atualmente passa o bonde turístico, na Rua do Comércio; e a Associação Comercial na Rua XV de Novembro, que representava os interesses dos comerciantes de café que exportavam pelo porto de Santos.

O prédio da Bolsa Oficial de Café foi inaugurado bem mais tarde, em 1922, mas é um símbolo da época em que a planta dominou a economia nacional. Em 1981, o prédio foi tombado pelo Patrimônio e perdeu sua finalidade principal, com o encerramento dos pregões que ali se realizavam. As obras de restauração foram finalizadas em 1998, incluindo a instalação do Museu do Café. Além de exposições, funciona no local a Cafeteria do Museu, onde se pode comprar pelo menos cinco tipos de café de qualidade, moídos na hora, e o docecafé, o doce-símbolo da cidade, feito de café com avelãs moídas, banhado com chocolate.

foto: João Correia Filho/HG
Estação do Valongo, da São Paulo Railway, em estilo vitoriano, era conhecida como “A Ingleza”

O caminho do bonde

O mais visível e atraente projeto do Centro Histórico de Santos é a linha do Bonde Turístico, em operação desde 2000 e um dos marcos da urbanização da cidade. Os bondes (um aberto e um fechado) percorrem 1,7 quilômetro. Guias contam histórias sobre vários pontos estratégicos avistados do seu interior. Puxados a burros, os primeiros bondes iam do Centro ao Bairro do Boqueirão. Os elétricos começaram a rodar em 1909, ligando Santos a São Vicente, via praia. O preço de todo o percurso era dois tostões – moeda da época. As linhas funcionaram durante cem anos – de 1871 a 1971.

A cidade conta com alguns marcos importantes do período colonial. Restaram a igreja do Valongo, fundada pelos franciscanos no século 17, que resistiu à construção da Santos-Jundiaí, responsável pela demolição do convento ao lado. Antigo também é o prédio do Mosteiro de São Bento, que hoje abriga o Museu de Arte Sacra. Ao visitá-lo, é possível conhecer as instalações dos frades que viviam enclausurados: celas (quartos), salas de refeição, estudo e claustro.

O museu abriga obras sacras dos séculos 16 a 19, entre elas, uma imagem de Santa Catarina de Alexandrina, de 1540, primeira padroeira de Santos. Quando a vila colonial foi invadida por piratas, em 1591, a capela onde estava a imagem, no Outeiro de Santa Catarina, foi destruída e a santa jogada ao mar. Setenta e dois anos depois, foi recuperada por escravos pescadores do Colégio dos Jesuítas. No outeiro, foi construída nova capela, que funcionou durante dois séculos, até ser desativada.

Mas o mais belo conjunto arquitetônico colonial de Santos são as duas construções da Ordem do Carmo. São duas igrejas barrocas – Nossa Senhora do Carmo e Capela da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo – datadas respectivamente de 1752 e 1754, entrepostas por uma torre revestida de azulejos. Outra capela, igualmente antiga, é a de Nossa Senhora do Monte Serrat, construída entre 1598 e 1603, no alto do morro. Diz a lenda que a santa, cuja imagem de barro cozido, com 40 centímetros de altura, está no altar-mor da capela, é responsável por um milagre. Em 1615, em nova invasão dos piratas, a população foi obrigada a fugir para o morro. Na perseguição, foram salvos porque os assaltantes morreram pelas pedras que rolaram da montanha.

A defesa da Baixada

Nos tempos coloniais, a Baixada Santista era cercada por inimigos – de índios hostis a piratas e invasores. Não é de estranhar, portanto, que a região tivesse muitas fortalezas: Forte São Felipe (1557) e Forte São Luiz (1770), no Guarujá; Fortaleza de Vera Cruz do Itapema (1738), em Vicente de Carvalho, no Guarujá; Forte Augusto (1734) e Forte da Vila, o mais antigo, construído por volta de 1543. Restam desse período, o Forte São João (1551), em Bertioga; e o Forte de Santo Amaro, ou Fortaleza da Barra Grande (1583). Esse último, construído para enfrentar os corsários ingleses e franceses, foi restaurado na década de 1990 pela Unisantos (Universidade Católica de Santos). No interior da ermida, que foi erguida nas instalações da antiga Casa de Pólvora, há um grande painel montado com 350 mil pedras coloridas, última obra do artista Manabu Mabe.

Ainda do período colonial, destaca-se o Engenho dos Erasmos, o mais antigo vestígio do período do açúcar na Capitania de São Vicente. Trata-se de um dos primeiros engenhos do Brasil, e funcionou até o século 18. Produziu também rapadura e aguardente para consumo local. As ruínas do Engenho dos Erasmos foram tombadas pelo Patrimônio Histórico (atual Iphan) em 1963 e integradas ao acervo da Universidade de São Paulo.

Eventos culturais

O Plano de Revitalização do Valongo e o Alegra Centro (ou Programa de Revitalização e Desenvolvimento da Região Central Histórica de Santos), de 2005, foram criados para estimular a recuperação de uma “área de proteção cultural” que abrange 840 imóveis históricos da cidade. As intervenções têm sido realizadas com verbas estatais em parceria com a iniciativa privada. Algumas realizações: reurbanização de praças (José Bonifácio, Mauá, República e Barão do Rio Branco); iluminação com réplicas de lampiões nas ruas XV de Novembro e do Comércio; reforma do Teatro Coliseu (em andamento); restauração do Outeiro de Santa Catarina, que hoje abriga a sede da Fundação Arquivo e Memória de Santos; restauração do prédio da Bolsa de Café, da Casa da Frontaria Azulejada, do Santuário do Valongo e de alguns edifícios da rua XV de Novembro.

foto: João Correia Filho/HG
Palácio da Bolsa Oficial de Café, inaugurado em 1922, foi restaurado e hoje abriga museu e local de exposições

Eventos culturais ao ar livre, como o Música na XV, às sextas-feiras, atraíram cafeterias e restaurantes. Com esse visual envolvente, os próprios santistas agora não vão ao centro somente “por causa dos bancos ou para comprar”. Hoje, o local é procurado também para happy hour, jantar com amigos em bons restaurantes e festas. É opção para passeios em família nos fins de semana, e as tardes de domingo podem ser preenchidas com concertos no suntuoso salão do pregão da Bolsa de Café.

Um ambicioso plano prevê também a destinação para lazer dos armazéns ociosos do Porto – os armazéns de 1 a 8 – entre o Valongo e o Paquetá. A prefeitura pretende transformar a área em um complexo de cultura e lazer. A legislação municipal, por meio do Alegra Centro, já prevê a utilização da área para fins culturais e turísticos, que deverão ser explorados pela iniciativa privada.

O porto continua em pleno funcionamento. Mas privatizado desde a Lei dos Portos, de 1993, modernizou-se e tornou-se o maior da América Latina. Grandes armazéns servem de abrigo a mercadorias variadas, enquanto canalizações submarinas conduzem petróleo e seus derivados aos navios. Economia e patrimônio nesse caso estão andando juntos na cidade que é muito mais do que um dos grandes balneários paulistas.

Santos Futebol Clube
Memorial das conquistas conta história do time de Pelé

Conhecido por fãs de futebol do mundo todo, o Santos Futebol Clube é o embaixador santista no cenário nacional e internacional. O clímax dessa história começou em 1956, quando chegou à Vila Belmiro, onde está localizado o clube, o adolescente Pelé, aos 15 anos. A partir daí, ao longo de mais de uma década, o Santos conquistaria todos os títulos mais importantes de seu tempo, como o bicampeonato mundial interclubes (1962/1963). O Memorial das Conquistas, que fica no próprio estádio, é o museu do time: troféus, documentos, uniformes, fotos ampliadas, flâmulas e recursos multimídia relembram as glórias do Santos.

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