Museu flutuante

O navio oceanográfico Professor Wladimir Besnard, aposentado pelo do Instituto Oceanográfico da USP,  será transformado em um museu flutuante no porto de Santos. Ele integrará o futuro complexo do Porto Valongo, que ocupará os velhos armazéns de 1 a 8, do trecho de cais. Ao lado de marinas, um novo terminal de passageiros, serviços públicos e turísticos, o velho navio contará histórias sobre a aventura heroica que foi garantir que o Brasil tivesse um pé na gelada Antártida, o continente que resta a ser explorado.

A grande aventura de navegar nas águas do fim do mundo começou, de fato, com um susto. O Brasil estava atrasado no cumprimento do Protocolo Antártico, que estabelecia que os países com projeções geográficas sobre o continente gelado só teriam de fato direito a permanecer lá se, até o final de 1983, apresentassem pesquisas científicas sobre a área.

Marinha e Instituto Oceanográfico correram atrás do prejuízo. O navio Besnard não é preparado para operações em águas antárticas e quase tudo foi improvisado. A primeira viagem, confirmando as pretensões do país ao continente gelado se deu no final de 1982. A tensão da Guerra das Malvinas chegou numa madrugada, durante a viagem. Um caça Sea Harrier pairou com seus holofotes à proa do navio e logo foi seguido por uma fragata inglesa. A habitual arrogância inglesa não queria acreditar que um país estivesse fazendo pesquisas no sul com um barco de apenas 49 metros de comprimento e 9 de largura, um barquinho de brinquedo perto das máquinas que percorrem aquelas águas. Depois de uma longa conversa, pôde prosseguir.

Histórias como essa recheiam as seis viagens feitas à Antártida pelo Besnard, o primeiro navio de pesquisas civil brasileiro naquelas águas. Foram elas que garantiram os direitos ao Brasil, por meio de uma pesquisa biológica sobre o Krill, um pequeno camarão abundante na região. A Base Comandante Ferraz foi instalada nessas primeiras viagens. Essa mesma base que, em fevereiro deste ano, pegou fogo provocando a morte de dois marinheiros.

O Besnard enfrentou enxames de icebergs,  dos quais escapou por pouco, problemas de comunicação, adaptações diversas e, por fim, na última das viagens, em 1988, a quebra do eixo de propulsão o deixou à deriva por 24 horas, sujeito a um naufrágio trágico no Estreito de Drake.

O velho navio tem o que contar.

 

Jornal da Orla

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